Provavelmente você já percebeu que não há muitas receitas de origem indígena nesse site e nem há uma página dedicada a essas receitas. Então, porque há uma página sobre essa história?
O município de Rancho Queimado possui uma história com fortes raízes indígenas, no entanto, os povos indígenas que nessa cidade habitavam são praticamente desconhecidos pelos cidadãos. Em 2025, o mesmo grupo de estudantes que desenvolveram esse site, fizeram um trabalho de pesquisa sobre essa história indígena, ajudando a resgatar uma história que vem se perdendo. O projeto “Em memória dos povos esquecidos” mostrou a comunidade a sua história e a documentou, contudo, essa pesquisa ficou em arquivo.
É difícil preservar uma história sem contá-la, é por isso que fizemos esse post.
E como é essa história?
Para iniciar, gostaria de contextualizar sobre o surgimento de uma profissão no século XIX, os bugreiros.
Após a proclamação da independência, o governo passa a favorecer a vinda de imigrantes europeus, para mão de obra, povoar território e possivelmente por uma ideologia de embranquecimento populacional. Com a vinda dos imigrantes, que muitas vezes se alojavam em território indígena, foi criada a Companhia de Pedestres em 1836, com o objetivo de manter a segurança dos colonos em áreas de fronteira e em relação aos povos indígenas.
Como os indígenas eram considerados um “empecilho” para a colonização com imigrantes europeus, na tentativa de “proteger” os colonos e abrir caminho para a preservação de terras, o governo de Santa Catarina organizou pequenos grupos armados, com homens que já tinham conhecimento sobre o terreno, para localizar e combater os povos indígenas. Esses grupos foram chamados de “Comissão de Batedores do Mato” e eram vinculados a Companhia.
A Lei de terras decretada em 1850, instituiu a compra como principal modo de acessar uma terra, logo, quem não possuía dinheiro para comprar legalmente a terra perdia o direito a ela. Essa lei não reconhecia as terras ocupadas por indígenas como legítimas, então, suas terras foram vistas como “vazias” mesmo sabendo que essas terras eram povoadas. Isso facilitava para o governo ceder as terras para os colonos, sem considerar a presença dos indígenas. A Lei de Terras também fortaleceu a colonização baseada em empresas particulares, que receberam lotes de terra para distribuir a imigrantes europeus.
Colônias para abrigar os imigrantes foram criadas em território indígena e por mais que se sabia sobre a ocupação indígena nesses territórios, isso não despertava a preocupação dos responsáveis pelas povoações na época.
Acreditando que a presença dos imigrantes faria os nativos recuarem, foram abertos estradas e postos de vigilância. Era esperado que, assim, a circulação no território se tornasse mais segura. Porém, a iniciativa do governo adiantou de quase nada já que os encontros com os colonos não eram tão frequentes e os indígenas dominavam um enorme território, não havia como uma pequena tropa trazer segurança aos colonos.
Na medida em que o número de colônias aumentava, a reação indígena também. Os colonos foram atacados e alguns poucos mortos, entretanto a violência contra os indígenas aumentava. Os colonos reclamavam da falta de segurança e em algumas situações, ameaçam abandonar as colônias.
No ano de 1879, a Companhia de Pedestres foi extinta pelo governo, e os batedores do mato transformaram-se em bugreiros, passando a percorrer as matas caçando e matando os indígenas que encontravam. O termo bugreiro, vem de uma derivação de bugre, nome pejorativo para se referir aos indígenas. Nessa época, os indígenas eram considerados selvagens, portanto, os responsáveis por sua eliminação eram vistos como heróis, já que estavam exterminando quem era considerado agressivo.
Um dos bugreiros mais conhecidos foi Martin Marcelino de Jesus, também conhecido como “Martin Bugreiro”.
A história indígena em Rancho Queimado.
No final do século XIX e início do século XX, Martin fez uma série de trabalhos pela região de Rancho Queimado e os municípios próximos. Um deles aconteceu em Rancho Queimado, quando o Martin bugreiro foi contratado pelo governador da época para fazer um trabalho no distrito de Taquaras (Rancho Queimado).
Os bugreiros tinham uma forma de atuação peculiar, eles levavam algumas mulheres e crianças para matarem no centro das cidades. Era uma forma que mostrar a população que eles estavam matando quem era considerado o problema.
Em Rancho Queimado, foi o mesmo. Pendurada em sua espingarda, com mãos e pés presos, Martin levava uma garotinha de aproximadamente 9 meses para o centro de Taquaras. Junto com ela, eles levavam mais dois garotos, esses os quais não se sabe o paradeiro. Thelesophia Alvina Waldin era o nome da garotinha, conhecida na região como “índia Sophia”, “Sófi” ou “Sophia” e foi a única sobrevivente do extermínio indígena no município de Rancho Queimado.
Ao chegarem na casa de Roberto Cristiano Schutz, que na época era um hotel e uma venda de produtos para os colonos, o Martin decidiu parar.
Haviam várias pessoas no local e, sabendo que várias delas de opunham ao extermínio dos indígenas, ele decidiu fazer sua demonstração pública ali. Pegou a pequena garota e sacou a espada para matá-la na frente deles. Alvino, bisneto de Roberto, disse que a roupa dos bugreiros estava coberta por sangue.
Martin, de acordo com relatos dos moradores, teria dito: “Vou mostrar para vocês como se mata esses bichos” enquanto pegava a garotinha pela perna. Quando ele foi jogar ela para cima para assassiná-la, o dono da casa, Roberto, pegou uma pistola, apontou para Martinho e Alvino conta que ele disse: “Se tu matar ela tu não mata mais ninguém, que quero te dar um tiro bem na testa.”
Irritado com a ameaça, o bugreiro jogou a garota no chão e disse para que Roberto desse um fim nela. Até onde sabemos, nunca mais os bugreiros voltaram para Rancho Queimado. A garotinha foi adotada pelo Roberto e sua esposa, Alvina Weiss Schutz, que nomearam a menina como Thelesophia Alvina Waldin. Waldin, em alemão, significa “do mato”.

Roberto Cristiano e Alvina Weiss Schutz, década de 20, acervo de Ismael Amando Schuch
A Sófi, como era carinhosamente chamada pelos membros da família, foi educada junto com seus 11 irmãos. Ela foi batizada em 13 de julho de 1897 na Igreja Luterana de Taquaras. Sophia aprendeu a falar alemão fluentemente, e sabia um pouco de português. Ela era muito religiosa e amava a natureza.
Em outra entrevista que fizemos, Denildes Weiss Chagas, conta como foi sua convivência com Sofia.
“Quando tinha sete anos, eu vim de uma família com muitos irmãos. Minha tarefa como mais nova era buscar o leite na casa do meu bisavô. Eu chamava muitas vezes na varanda e até o pessoal chegar por ter dificuldade de andar e de idade ainda acabavam demorando bastante. Uma senhora conhecida, chamada dona Alci, sempre me dizia Tita entra, vai lá dentro pegar o leite. Eu entrava muito curiosa, passava no corredor e tinha uma cama com uma linda boneca. Ficava curiosa esperando o leite chegar, ela, a Sófi me levava pra uma cozinha mais fechada, não falava nada, só em alemão. O sorriso dela era muito brilhante, ela sorria mas não se via os dentes, ela era uma índia linda”
Denildes conta que de noite ele se reuniam para ver um programa dos “irmãos coragem”, e como eram muitos irmãos e parentes na frente da TV, não havia espaço para ela, e ela conta que via o programa com a Sófi na cozinha, no colo dela. Sempre pegava no sono, escorregava na perna dela por ser bem curta. Denildes também conversava e alisava o cabelo da Sophia.
Conseguimos dois registros fotográficos de Sophia, uma dela criança e outro já adulta. Ambas as fotos com péssima qualidade.

Thelesophia Alvin Waldin

Sophia com outras crianças. Acervo da família Weiss.
Na segunda imagem, Sophia é a garota à direita de um garoto com chapéu na mão.
Após o falecimento de seus pais, Alvina na data 25/01/1930 e Roberto, 02/05/1938, a casa onde moravam passou para sua filha, Maria Helena Schutz Goedert e seu esposo, Amando Goedert. Sophia continuou a morar na casa e passou a frequentar a igreja católica.

Casa de Roberto e Alvina, onde Sophia morou. Pertence atualmente a Ismael Amando Shuch, tataraneto do casal Roberto e Alvina. Foto de 2020. Acervo de Ismael Amando Shuch
Faleceu em 14 de abril de 1976, com 80 anos. Os entrevistados afirmam que ela faleceu de velhice e nunca a viram doente. Ela está sepultada no cemitério luterano de Taquaras. Visitamos o cemitério e registramos imagens de seu túmulo. Em seu túmulo, o nome registrado é “Sofia Alvina”, como ela era chamada pelos moradores de Taquaras.

Túmulo de Thelesophia Alvina Waldin
Além disso, conseguimos um registro de uma confirmação de Sophia, todo escrito em alemão.

Confirmação de Thelesophia, assinada pelo pastor Christian Zluhan, em 16 de julho de 1909. Acervo de Ismael Amando Shuch
Em entrevistas que realizamos com os moradores da cidade, a maioria deles afirmou não ter conhecimento sobre a presença indígena no município e o que um ou outro sabia era fragmentos da história de Sophia.
Os entrevistados também afirmaram que a história indígena em Rancho Queimado não é tratada, não é contada. Nosso papel buscando informações mesmo diante da falta de registros, é importante para questionar: por que essa história não é tão contada? E como podemos dar visibilidade a isso hoje? Preservar a história não é só lembrar do passado, é também refletir sobre ele, reconhecer erros cometidos, como a ação dos bugreiros, e valorizar os povos que ajudaram a formar o lugar onde vivemos.
Mesmo não encontrando informações sobre o modo de viver dos indígenas aqui no município, percebemos que o ato de buscar essas informações é uma forma de preservar essa história.
